quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Mulheres, Tecnologia Social e Economia Solidária

A capacitação de mulheres como protagonistas de uma economia solidária foi temática central de palestra conferida na última quarta-feira (25/11), durante a 8.ª Expo Brasil Desenvolvimento Local, com foco nas experiências finalistas do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social - 2009. Vindas de Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e Afogados da Ingazeira (PE), mulheres de distintas realidades no País expuseram iniciativas que, pelos resultados obtidos e pelo amadurecimento de suas metodologias, tornaram-se tecnologias sociais reaplicáveis em diferentes regiões.

Entre as três experiências apresentadas na 8.ª Expo Brasil, estava a "Rede de Mulheres para a Comercialização Solidária", desenvolvida pela Casa da Mulher do Nordeste, de Afogados da Ingazeira (PE), vencedora este ano do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, na categoria Participação de Mulheres na Gestão de Tecnologias Sociais. Para o público do evento em São Paulo, a coordenadora dessa iniciativa, Maria Marli Romão, fez um discurso emocionado sobre a importância de se enfatizar o protagonismo feminino numa nova perspectiva econômica.

"Certamente, ao falarmos de um conceito de desenvolvimento local, humano e sustentável, as mulheres são atores fundamentais", contextualizou. A importância econômica delas, como "reprodutoras da vida" e responsáveis pelo giro de uma economia regional, não é nova. "No entanto, é mais recente o movimento de valorização do papel feminino num modelo que não priorize exclusivamente a geração de riqueza, mas a redução da pobreza", afirmou Maria, para um público interessado em conhecer mais sobre a dinâmica de tecnologias sociais com foco nas discussões de gênero.

Contra a invisibilidade

A tecnologia social de Pernambuco, premiada em 2009 pela Fundação Banco do Brasil, surgiu em 2003 para criar novas possibilidades econômicas para mulheres que viviam em comunidades rurais isoladas no chamado sertão de Pajeú. "Invisíveis" economicamente, essas mulheres tinham produção ativa, mas mantida reservada no espaço privado da família, sem expressão social. A Rede Mulheres Produtoras de Pajeú, desde que foi formada, já reuniu cerca de 450 dessas trabalhadoras em dez municípios, que exerciam grande pluralidade de atividades com foco regional. Essas mulheres passaram a se organizar, a discutir aspectos de gestão de seus negócios, passaram a ter acesso mais facilitado a linhas de crédito e a refletir sobre a condição feminina.

A capacitação para uma organização coletiva do trabalho também é foco da Rede Industrial de Confecção Solidária (RICS), de Porto Alegre (RS), que reúne cerca de 40 mulheres. Juntas e com auto-gestão, eles reorientaram sua força produtiva, organizaram um modelo de negócio e conseguiram ampliar de R$ 150 para R$ 890 a renda média mensal de cada integrante. Ilma Borges, coordenadora da RICS e palestrante na Expo Brasil, lembra que o projeto encontrava, em seu início, um quadro de feminilização da pobreza na capital gaúcha. Ao mesmo tempo, surgiam formas espontâneas de trabalho no setor de confecções, mas que, por diversas razões, não sobreviviam. "Vimos então que precisávamos adotar a inserção contínua de renda e a capacitação para superar situações de vulnerabilidade social", explica Ilma.

A RICS firmou contrato com um grande grupo hospitalar em Porto Alegre e passou a fornecer todas as roupas usadas dentro dos hospitais, numa média semanal de 5 mil peças. O contrato garante a demanda pela produção das mulheres nas confecções "Criamos o conceito da demanda socialmente orientada, pelo qual adotamos parceria entre organizações que nos davam apoio técnico e instituições que poderiam contar com produtos de empreendimentos solidários", conta Ilma. O modelo de orientação da Rede permite sua reaplicação em qualquer localidade, credenciando a experiência ao status de tecnologia social.

Um novo olhar para a gestão do próprio negócio foi apresentado na Expo Brasil também a partir da experiência "Gerando Renda e Transformando Relações de Gênero". "Os resultados que nós alcançamos podem parecer pequenos, se pensarmos na dimensão do Brasil, mas eles crescem muito se pensarmos no efeito multiplicador do trabalho", comenta Cristina Simião, fundadora da Associação Difusora de Treinamentos e Projetos Pedagógicos (Aditepp), de Curitiba.

A experiência liderada pela Aditepp já capacitou 3.800 mulheres empreendedoras e 11.400 homens foram envolvidos nos eventos sobre economia familiar. O foco da Associação é a orientação para trabalhadores gerirem seus próprios negócios, a partir de treinamentos sobre administração financeira, melhoria de rendimentos, qualidade de vida e, muito enfaticamente, sobre as relações de gênero nas famílias. Reside aí a importância, para a Aditepp, de envolver especialmente maridos na capacitação das mulheres para a auto-gestão de negócios, dentro de uma perspectiva solidária.

Fonte:www.rts.org.br
Foto: do fotografo do FBB?

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Carta dos Atingidos pelo BNDES


FBES está entre as mais de 50 organizações que assinam a carta
Os participantes do Seminário Atingidos - I Encontro Sul-Americano de Populações Impactadas por Projetos financiados pelo BNDES formalizaram uma carta, assinada por 56 instituições, à sociedade brasileira em sinal de repúdio ao modelo de desenvolvimento financiado pelo BNDES.
Somos indígenas, quilombolas, camponeses, ribeirinhos, pescadores, trabalhadoras e trabalhadores do Brasil, Equador e Bolívia, reunidos no I Encontro Sul-Americano de Populações Impactadas por Projetos financiados pelo BNDES.
Somos, todas e todos, atingidos por estes projetos, sobre os quais nunca fomos consultados e que são apresentados para nós como empreendimentos que irão trazer progresso e desenvolvimento para o Brasil e para América do Sul. São projetos financiados pelo BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, voltados para o monocultivo de cana de açúcar e eucalipto, para a produção insustentável de carne, para a exploração de minério, para a construção de fábricas de celulose, usinas de produção de agroenergia, siderúrgicas, hidrelétricas e obras de infraestrutura, como portos, ferrovias, rodovias, gasodutos e mineriodutos. Estes têm afetado direta e profundamente nossas vidas, em especial das mulheres, nos expulsam das nossas terras, destroem e contaminam nossas riquezas, que são os rios, florestas, o ar e o mar, dos quais dependemos para viver, afetam nossa saúde e ampliam de forma permanente a exploração sobre os povos de nossos países.
Fonte: Fórum Brasileiro de Economia Solidária

Goiás faz avaliação da Caravana Solidária 2009

Positivo, mas com algumas ações a serem melhoradas. Esta foi a avaliação da Caravana Solidária realizada em Goiás em 2009, por sinal, um dos poucos estados onde a caravana percorreu diversos município. A reunião realizada nos dias 4 e 5 de dezembro em Goiânia teve como objetivo também eleger a Executiva Provisória do Fórum Goiano de Economia Solidária e traçar as estratégias para o Encontro dos coordenadores do Fórum Brasileiro de Economia Solidária que acontece de 13 a 15 de dezembro em Goiânia e para a Feira Estadual que deve reunir cerca de 200 empreendimentos de Goiás e Entorno de Brasília.
Outro ponto avaliado durante a reunião foram as quinze oficinas realizadas pelo Centro de Formação em Economia Solidária da Região Centro-Oeste. Segundo um dos coordenadores do CEFES, Deusdete Oliveira, mais de 300 pessoas participaram das oficinas realizadas nos municípios goianos de Varjão, Aparecida de Goiânia, Niquelândia, Goiânia, Rio Verde, Iporá, Heitoraí, Pirenópolis, Porangatu, Minuaçú e Faina. Em Goiás a Caravana Solidária distribuiu livros, folders, cartazes, banners, camisetas e certificados para os participantes das oficinas. O material foi utilizado na divulgação da comercialização e formação em Economia Solidária.
Fonte: Imprensa Caravana Solidária Goiás

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Inscrições para o Fórum Social de Economia Solidária

Estão abertas as inscrições para o Fórum Social de Economia Solidária, que acontecerá de 22 a 24 de janeiro de Santa Maria/RS.

A inscrição na Feira Mundial segue até dia 24 de dezembro/2009.

Seguem os links para as diferentes inscrições:

Inscrição de empreendimentos na Feira Mundial de Economia Solidária - Santa Maria: http://fsmecosol.org.br/index.php?acao=inscricao_empreendimentos

Inscrição para 1ª Mostra Internacional da Biodiversidade: http://fsmecosol.org.br/index.php?acao=inscricao_biodiversidade

Inscrição de Organizações no Fórum Social de Economia Solidária: http://fsmecosol.org.br/index.php?acao=inscricao_prefeituras

Inscrição de Atividades Culturais Santa Maria: http://fsmecosol.org.br/index.php?acao=inscricao_atividades

Inscrição de Atividade Autogestionária - Santa Maria: http://fsmecosol.org.br/index.php?acao=inscricao_autogestionarias

Inscrição Participante Individual no Fórum Social de Economia Solidária: http://fsmecosol.org.br/index.php?acao=inscricao_individual
08 de dezembro de 2009
Fonte: Secretaria Executiva do FBES

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

CONVITE - I Seminário Economia Solidária e Reciclagem


O Núcleo de Economia Solidária e Incubação de Cooperativas (NESIC) da Universidade Católica de Pelotas (UCPEL) convida a todos para participar do I Seminário Economia Solidária e Reciclagem que será realizado no dia 12 de Dezembro, às 13:30h na sala 406, prédio C, da UCPEL. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas até o dia 11 de dezembro na sala do NESIC, que fica no Campus I, sala 201 prédio B, ou pelo telefone 2128.8015.

O Seminário contará com dois painéis:
1º) Políticas Públicas da Coleta Seletiva: alternativas de trabalho e renda nos municípios de Pelotas, Rio Grande e Jaguarão
2º) Roda de Conversas com grupos de reciclagem das três cidades.

Contamos com a presença de todos. Atenciosamente, Equipe da Reciclagem do NESIC-UCPEL

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Michael Moore: Obama, queres ser o novo presidente da guerra?

O ativista e diretor de filmes americano Michael Moore publicou em seu site uma carta aberta escrita para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na qual alerta o comandante em chefe do país sobre o aumento de tropas no Afeganistão.
Moore, conhecido por documentários críticos em relação à política de Washington, como Tiros em Columbine, Farenheit 11 de Setembro e Sicko $O$ Saúde, diz ser um porta-voz dos eleitores que fizeram Obama vencer as eleições e lembrou os últimos comícios do líder com suas promessas de mudança.

"Quando o elegemos, não esperávamos milagres. Nós nem mesmo esperávamos muita mudança. Mas esperávamos alguma. Nós pensamos que o senhor acabaria com a maluquice. Pararia com a matança. Acabaria com a ideia insana de que homens com armas podem reorganizar uma nação que nem sequer funciona como nação, e nunca funcionou", disse Moore, na carta.

Obama apresentou nesta terça-feira uma 'nova' estratégia para a guerra no Afeganistão, em discurso na Academia Militar de West Point, em Nova York. Como era esperado, ele divulgou o envio de 30 mil soldados para a região.

Moore alegou, em sua carta, que o reforço às tropas no Afeganistão poderia causar desilusão entre os jovens eleitores que ajudaram a eleger Obama. Ele ainda encorajou os leitores de seu site a ligarem ou mandarem e-mail para a Casa Branca para expressar insatisfação.

"Você realmente quer ser o novo "presidente da guerra"? Se você for a West Point (...) e anunciar que está aumentando, em vez de retirando, as tropas no Afeganistão, você é o novo presidente da guerra", escreveu Moore, ates do anúncio de Obama sobre o reforço das tropas.

"Com apenas um discurso (...) você tornará uma multidão de jovens que foram a espinha dorsal da sua campanha em cínicos desiludidos. Você os ensinará o que eles sempre ouviram ser verdade - que todos os políticos são iguais".

Moore está em viagem pela Ásia para promover seu último filme, "Capitalismo: uma história de amor". Além da carta, Moore disse, no Japão, ter enviado a Obama uma mensagem do seu pai, um veterano da Segunda Guerra Mundial.

"Eu passei a ele um pedido do meu pai e seu amigo japonês: 'Senhor Obama, você não conhece a guerra. Nós dois conhecemos a guerra e não queremos mais isso',", disse Moore em Tokyo.
Fonte: Portal Vermelho

Vale-cultura é aprovado em três comissões do Senado

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou nesta quarta-feira (2) o projeto que cria o Vale-Cultura. O programa prevê um benefício no valor de R$ 50,00 mensais para gastos com cultura. No texto do Senado foi retirada a inclusão feita pela Câmara da possibilidade de benefícios para servidores públicos federais, estagiários e aposentados. O projeto está pronto para votação no plenário da Casa.
O projeto foi lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em julho em São Paulo. De acordo com o programa, trabalhadores terão direito a um benefício no valor de R$ 50,00 mensais que poderão ser gastos em ingressos de cinema, teatro, shows, museus e na compra de livros, CDs e DVDs, entre outros bens culturais. No Senado, foram incluídas revistas culturais entre as possibilidades de compra. O Vale-Cultura será distribuído, preferencialmente, em meio magnético e não pode ser convertido em dinheiro.

O programa também prevê que as empresas que concederem o cartão Vale-Cultura aos seus funcionários terão direito a deduzir até 1% no Imposto de Renda. A adesão das empresas não é obrigatória. O Ministério da Cultura espera aumentar em até R$ 600 milhões por mês o consumo cultural no país.

Pelo projeto do governo, as empresas que aderirem ao programa terão de dar o benefício para todos os trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos. Eles poderão ter de dar contrapartida de até 10% do valor total do Vale-Cultura. Quem ganha mais poderá ser beneficiado se a empresa não tiver atingido o teto de dedução do IR. Neste caso, a contrapartida do trabalhador pode ir de 20% a 90% do valor do Vale-Cultura.
Fonte: Agência Senado

Assentados ocupam área de empresa de energia no RJ

Cerca de 80 famílias de trabalhadores rurais Sem Terra do assentamento Paz na Terra, localizado na cidade de Cardoso Moreira, na região norte fluminense, ocuparam nesta quarta-feira (2/12) uma área da empresa Ampla Energia e Serviços S/A, em Campos dos Goytacazes. A companhia, responsável pelo fornecimento de energia elétrica do assentamento, havia começado a obra de instalação de postes no assentamento, e na semana passada os retirou.
A Ampla alegou que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), responsável pela contratação do serviço, não pagou a empresa. A obra estava prevista para terminar em 30 de novembro, mas diante do impasse foram retirados os materiais já instalados e o trabalho foi paralisado.
As famílias, que estão há um ano esperando pela energia no local, ficaram cerca de três horas no prédio e afirmaram que o pagamento já foi feito à empresa por parte do Incra. Após uma reunião com os Sem Terra, a empresa se comprometeu a entregar a obra pronta até dia 30 de dezembro. Caso contrário, as famílias estão dispostas a reocupar o local por tempo indeterminado.
Fonte: MST

"No agronegócio não existe produção ecologicamente correta", diz integrante da CPT

O agronegócio visa somente o lucro e dificilmente irá ter uma real preocupação com as questões ambientais e relações de trabalho. A opinião é do Coordenador Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Dirceu Fumagalli, que participou da divulgação dos dados preliminares do relatório de conflitos do campo. A região Norte foi a que apresentou os maiores índices de assassinatos e trabalho escravo do País.

De janeiro a novembro deste ano, nove lideranças, posseiros, indígenas e sindicalistas foram assassinadas no Norte do Brasil, área onde também foram encontradas 83 pessoas que trabalhavam em situações análogas à de escravo no mesmo período. Embora ainda seja líder, a região apresentou uma queda nos números de assassinatos e de trabalho escravo, se comparado a 2008, quando os índices foram 12 e 111, respectivamente.

Fumagalli afirma que um dos principais geradores desses índices é o avanço do agronegócio em regiões como Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que faz com que outras culturas, como a pecuária, avancem sobre a floresta. Dessa forma, segundo ele, aumentam os conflitos pela terra entre os pecuaristas, madeireiros e agricultores e as populações tradicionais. Uma briga entre o "interesse do capital e a luta pela dos trabalhadores e trabalhadoras", como define.

Em entrevista ao site Amazonia.org.br, Fumagalli comenta a elaboração dos estudos de violência do campo e afirma que os dados podem ser ainda maiores. Segundo ele, a única solução para o enfrentamento do problema seria a reforma agrária, tendo em vista a necessidade de se reconhecer as terras tradicionalmente ocupadas e a desapropriação de latifúndios.

Confira abaixo a entrevista:

Amazonia.org.br - Como é realizado o levantamento de dados para a elaboração dos relatórios de violência no campo da CPT?

Fumagalli - A CPT está organizada em todas as unidades federativas, com exceção do Distrito Federal, onde temos os nossos agentes. Às vezes temos várias equipes em um núcleo regional e são eles que são nossos "catalisadores" de informações, além de termos um grupo de documentarista em Goiânia que coordenada todo esse departamento de documentação. Elas fazem toda a triagem diária de pelo menos 200 jornais ou boletins que circulam no território nacional.

É esse banco de dados que nós compilamos e sistematizamos anualmente, desde 1985. Temos esse banco de dados aqui em Goiânia na sede da CPT Nacional e todo final de ano publicamos um documento, que chamamos de Caderno de Conflitos do Brasil.

Existem muitos casos de violência contra os trabalhadores rurais que não são documentados pelos meios de comunicação. Você acredita que os números de violência podem ser maiores do que os que vocês apresentam?

Com certeza. Não temos presença em todas as questões do território nacional. Seguramente a violência e o conflito no campo são maiores do que aquilo que nós sistematizamos.

Além de divulgarem para organizações, impressa e movimentos sociais, vocês costumam usar os dados para estimular a proposição de políticas públicas ou enviam para algum órgão do governo?

O entendimento que nós temos é que quem tem que se apropriar dessa luta, dos mecanismos de organização, de pautar suas reivindicações são os próprios trabalhadores. Eles que têm que ser protagonistas das suas ações, diretamente ou por meio de suas organizações. A Comissão Pastoral da Terra não é uma organização representativa, é uma entidade de serviço.

O entendimento que temos é que, ao atualizar o banco de dados, fazermos algumas interpretações e análises e devolvemos isso para os protagonistas da ação do campo. Eles se encontram dentro do conflito e consequentemente buscarão, através de seus pares, formulação de políticas públicas ou enfrentamento daqueles que de fato devem enfrentar como o próprio agronegócio, no caso, e as reivindicações para o governo ou a pressão em cima daqueles de fato têm provocando conflitos.

Os números de pessoas assassinadas por conflitos no campo costuma ser maior na região Norte. Eu gostaria de saber sua opinião em relação a esse dado. Por que nessa região?

Vários fatores. A CPT na verdade surgiu na região Norte, no Pará e depois se espalhou pelo território nacional rapidamente porque foi compreendido que o conflito do campo não é um "privilégio" da região. Infelizmente é uma realidade nacional.

Agora o que nós temos observado é que a pressão do modelo do agronegócio no centro-sul do país, onde o agronegócio tem mais voracidade e se apropriou da terra, pressiona outras culturas para que migrem. Principalmente a questão da pecuária nas áreas de fronteiras. Por isso que alguns estados, em especial os que estão mais na fronteira com o centro-oeste e fazem essa transição centro-oeste-norte é que são mais pressionados. Então por isso que o Pará, Rondônia e Tocantins, por assim dizer, são os três estados que fazem essa "entrada na região" onde nós sempre vamos encontrar uma incidência de violência maior.

É a pressão do modelo que faz com que a própria pecuária se expanda para a região, e para que haja espaço para a pecuária e todos os madeireiros, as comunidades tradicionais são pressionadas. Em conseqüência disso há reação e resistência: esse conflito entre o interesse do capital e a luta pela vida dos trabalhadores e trabalhadoras.

Neste relatório é possível perceber também um aumento significativo de todos os dados de conflitos no campo na região Sudeste, regiões que são mais conhecidas por suas cidades...

E é estranho... quer dizer, deveria causar não só uma estranheza, mas uma indignação de nossa parte. O sudeste, tido como a região mais desenvolvida do país, é onde encontramos a maior concentração de conflitos e principalmente trabalho escravo. Não digo que isso é uma aberração, mas é no mínimo um alerta para a sociedade brasileira de que nós não podemos conviver pacificamente com essa situação, com a alta exploração e inclusive com a condição de trabalho escravo nos estados desenvolvidos como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Acha que isso é um indicador de que nossa produção não está caminhando para uma produção mais ecológica e socialmente justa?

No agronegócio não existe essa questão de uma produção ecologicamente correta e nem justa nas relações trabalho. Ele visa o lucro. Por isso que, nessas regiões onde o agronegócio se consolidou e teve respaldo, inclusive de políticas de governo, consequentemente vamos encontrar o capital mais livre e, por causa da impunidade, nós não encontramos fazendeiros presos porque escravizaram, mesmo isso sendo um crime. Muito menos que perdem seus bens ou que sejam castigos por alguma questão. Essa impunidade no campo é que um dos grandes fatores que continua fomentando e gerando crimes e permitindo a pressão da violência no campo.

Acredita que existe algum caminho para diminuir reverter esse quadro e diminuir os índices de violência no campo?

O caminho é a reforma agrária em primeiro lugar. Reforma agrária, no sentido da desapropriação dos latifúndios, reconhecimento dos territórios tradicionalmente apropriados pelas comunidades, tanto áreas indígenas, como os quilombolas, os territórios dos ribeirinhos.Temos que ter uma regularização fundiária e a desapropriação dos latifúndios. Se isso não ocorrer, os proprietários desse mecanismo vão continuar fazendo com que as terras cumpram um único objetivo: gerar lucro. E não gerar alimento ou um lugar para se viver, mas um lugar para se produzir, produzir lucro.
Fonte: MST

MST e Via Campesina homenageiam Keno no Paraná

Em homenagem à memória do militante do MST e da Via Campesina Valmir Motta de Oliveira (Keno), a Via Campesina inaugura neste sábado (5/12) o Centro do Ensino e Pesquisa em Agroecologia Valmir Mota de Oliveira, e o Monumento "Keno Vive", no Paraná.

Em 21 outubro de 2007, Keno foi executado por uma milícia armada no Centro Experimental da transnacional Syngenta, em Santa Tereza do Oeste - batizado pelos trabalhadores de Acampamento Terra Livre. O movimento denunciava a realização de experimentos ilegais com sementes de milho transgênico em zona de amortecimento, prática vedada pela Lei de Biossegurança.

Com a grande repercussão e a condenação da sociedade à empresa, em outubro de 2008 a Syngenta transferiu a área (de 127 hectares) ao governo do estado do Paraná. O local será transformado em um centro público de pesquisa, experimentação, produção, capacitação da matriz agroecológica.

A atividade acontece no Centro de Pesquisa (Rodovia PRT 163 Km 188 – Cascavel/Capitão Leonidas Marques) e terá a seguinte programação:

9h - Acolhida das caravanas e mística de abertura.
10h - Pronunciamentos Políticos.
11h - Inauguração solene do Centro de Ensino e Pesquisa em Agroecologia Valmir Mota de Oliveira e Monumento Keno Vive.
12h - Almoço comunitário
14h - Apresentações Culturais.

Mesmo após a morte de Keno, as ameaças aos agricultores e à soberania alimentar do país continuam. A manutenção do latifúndio, o uso de milícias armadas, a dependência financeira causada pelas sementes transgênicas e o alto uso de agrotóxicos no campo evidenciam um modelo de desenvolvimento monopolista e violento.

Conclamamos a toda a militância a organizar em seus municípios e regiões as caravanas para participarem desta grande conquista que fortalece a luta na construção de um projeto soberano e popular para o Brasil.
Fonte: MST